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Estudantes lançam revista em luta pela representatividade gay negra

  • 23 de nov. de 2017
  • 5 min de leitura

O lacre é uma gíria muito usada pelo público LGBTTI para se referir a algo muito bom, e é também o nome da revista lançada na manhã desta quarta-feira (22) no anfiteatro da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Juiz de Fora. Idealizada pelos estudantes de jornalismo Armando Júnior e Leo Barbosa, e coordenada pela jornalista e professora Marise Baesso, a revista tem como principal público os LGBTTIs e negros.

Mesa composta por Armando Júnior, Neilton dos Reis, Leo Barbosa, Marise Baesso e Arthur Ribeiro, respectivamente

Segundo dados recolhidos pelos estudantes na produção da revista, dos negros que são mortos no Brasil atualmente, um dado possível é que, 12,6% são negros LGBTTIs. E Juiz de Fora é a terceira cidade com maior número de desigualdade entre negros e brancos do país. Segundo Armando Júnior, em contato com a UFJF, não foi possível coletar dados sobre o número de estudante negros, e não existe uma relação de quantos são os alunos LGBTTIs.

"Se esses dados não existem, oficialmente a gente não existe para a Universidade. Se alguma coisa precisa ficar clara para quem for ler a revista é isso: a cobrança de que existam esses números porque só assim vão existir políticas públicas adequadas para nós, que nos defendam e garantam nossos direitos. A gente merece esse espaço", afirma o estudante.

É disso que se trata, principalmente, a primeira edição da revista. "Falamos sobre a resistência de negros gays dentro da Universidade, sobre marcar presença! Dizer que estamos aqui e deveríamos ter voz. Além disso, denunciamos o esquecimento da nossa comunidade dentro e fora da UFJF", comenta Armando.

O PROCESSO CRIATIVO

O tema, que já era presente na vida dos idealizadores da revista, foi assunto de uma reportagem feita para uma disciplina da faculdade no primeiro semestre de 2017. A partir de então a vontade de criar algo que representasse o público LGBTTI e negro só cresceu. "Nós reunimos o material que já existia, pensamos melhor o formato e corremos atrás de outros conteúdos", conta Leo. Com o apoio da professora Marise Baesso, os estudantes conseguiram concretizar o projeto.

"Na disciplina, pedimos aos alunos que eles fizessem a 'reportagem da sua vida'. E o Leo e o Armando abraçaram a causa deles e foram buscar esse assunto que é pouco ou nada falado", diz a jornalista. "Eu estou aqui para dar o olhar de jornalismo, que não é só aquele visto como mercadoria, mas a notícia vista como transformadora. A gente não vai se calar, a gente quer mostrar e divulgar de todas as formas: a gente quer ser resistência, mesmo!"

Leo Barbosa, idealizador da revista, é gay e negro: "Nós sempre nos colocamos pensando no porquê temos que nos calar, nos curvar. Nesse trabalho a gente veio para quebrar um pouco essa lógica", afirma.

Eu tenho orgulho de ser gay, orgulho de dizer que eu sou bicha. Isso jamais será motivo de vergonha para mim, motivo de me encolher perante esse padrão

Leo Barbosa

BAFO + AFRO

A junção de um terno gay e um termo negro deu origem a Bafro, nome dado à maior reportagem da primeira edição da revista. Essa conta um pouco da história de cinco personagens gays negros, de biotipos, estilo e personalidade diferentes, todos estudantes da UFJF.

A primeira história dessa reportagem é a de Augusto Henrique, 23 anos, estudante de Bacharelado Interdisciplinar em Artes e Design. Na revista, Augusto conta que sua autoaceitação como gay só aconteceu quando já estava no ensino médio, apesar da sua descoberta ter vindo bem mais cedo, na puberdade.

Reprodução/O Lacre

"Quando contei para minha mãe ela não demonstrou surpresa, nem desapontamento, apenas perguntou se eu tinha certeza do que estava afirmando e se me sentia bem com isso. No fim nos abraçamos e ficou tudo bem. Com as outras pessoas eu fui demonstrando aos poucos porque não havia necessidade alguma de convocar uma reunião para assumir a minha homossexualidade", conta Augusto na revista.

O segundo personagem da revista é Arthur Ribeiro, que esteve presente no lançamento da revista na manhã de quarta. O estudante conta que se interessou pela temática da revista porque é algo único. "Você não é levado a muitos lugares por ser negro, você ser gay e negro muito menos. Então, pra mim, isso é uma forma de resistência. Se alguém me pergunta "O que é ser gay negro na sociedade?", eu digo que é luta. Luta todos os dias", relata.

Reprodução/O Lacre

Depois de Arthur, a reportagem traz Ítalo Pereira, estudante de Medicina, que fala sobre o medo da exclusão social e o seu reconhecimento como negro e como gay. Quando decidiu contar aos seus conhecidos que estava se assumindo gay, Ítalo fez uma brincadeira legal: criou grupos no Whatsapp com as pessoas as quais ele contaria o fato, relatou e logo em seguida saiu do grupo.

"Esses grupos se chamavam Armário; logo que eu saí do grupo aparecia 'Ítalo saiu do armário'. Vi essa ideia na internet e achei interessante a abordagem. Por mais que eu sentisse que não devia satisfações, preferi me assumir para poder bater de frente com quaisquer indiretas ou comentários maldosos", conta o estudante na revista.

Reprodução/O Lacre

A quarta história da reportagem é de Matheus Assunção, estudante do Instituto de Artes e Design, que conta sobre seu reconhecimento homossexual desde a infância, fala sobre família, corpo e desigualdades.

Sobre o espaço gay e negro dentro da universidade, Matheus afirma: "A construção do atual projeto da UFJF é eurocêntrico, da bibliografia à arquitetura dos espaços, nada é feito para nós. Todos os espaços deveriam ser para quem quer estar neles, independentemente das condições sociais, econômicas ou culturais".

Outra personagem presente no lançamento é a Maré das Flores. Ela, que não se reconhece nem menino nem menina, é não binária: "Não acho que eu seja um monstro por isso. Se a gente para para analisar os fatos e relatos, várias pessoas se encontram nesse lugar: não é um não lugar! Eu existo ali", comenta.

Eu não sei teorizar. É uma coisa que eu vou descobrindo todos os dias. Envolve essa não identificação no espaço masculino e nem feminino. Isso me gera muita inquietação. Eu não gostaria de ter que me definir.

Maré das Flores

O LACRE

A primeira edição da revista está disponível na plataforma Issuu em formato digital. São 116 páginas de luta pela representatividade e visibilidade negra e gay. "A gente está buscando alternativas para conseguir imprimir, vai desde parcerias até o projeto de financiamento coletivo", diz Leo Barbosa. Segundo ele, a divulgação está sendo feita através da página do Facebook e através de veículos de comunicação que têm auxiliado.

De acordo com a professora e jornalista Marise Baesso, a intenção é lançar uma revista a cada semestre. "Vamos trazer cada vez mais debates específicos. Essa questão não pode ser silenciada", diz.

Capa e contra-capa da revista O Lacre (Reprodução/Issuu)


 
 
 

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