Arte marcial auxilia e desenvolve o equilíbrio mental
- 22 de nov. de 2017
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Aikidô: uma pequena palavra, mas que abrange significados tão grandiosos. Para alguns, "o caminho da unificação da energia da vida", para outros, "o caminho do espírito harmonioso". Criada no Japão, nos anos 1950, durante o pós-guerra, essa arte marcial tem como objetivo combinar movimentos leves e precisos, redirecionando a força de um adversário, ao invés de combatê-la diretamente. Outro importante atributo desta arte é seu apego ao desenvolvimento espiritual e intelectual, movido pelo princípio do “Ki”, que exploraremos melhor à frente.
Existem várias ramificações do aikidô tradicional hoje em dia. Todas são praticadas no chamado dojô (palavra japonesa que significa “local do caminho”, o lugar aonde são ensinadas as artes marciais orientais), que deve ser respeitado e, por isso, reverenciado ao se adentrar. Em um deles, o chamado Ki Aikidô - Centro de Desenvolvimento de Ki, a sensei (em japonês “aquele que mostra o caminho”, o professor) Mônica Infante ensina os princípios dessa variação do aikidô, desde 1996. Nesta época, Mônica era bailarina profissional e buscava uma nova forma de conhecer e aprimorar seus movimentos corporais, para auxiliar no seu processo de criação artística.
Imediatamente a bailarina se encantou pela arte marcial e nunca mais a abandonou. Hoje, 22 anos depois, Mônica diz que por meio dos princípios que ensina, ela consegue hoje estabelecer uma relação mais calma, mais verdadeira e mais conectada com o outro e com seu entorno. “Ele traz um centramento, um bem-estar. Eu consigo hoje não reagir imediatamente à situações desconfortáveis, ser mais calma e mais precisa.”

A sensei Mônica (direita) com suas alunas Beatriz, Laura e Dolores: as faixas-pretas utilizam “saias”, chamadas de “hakamas”, por cima do kimono branco.
No Ki aikidô a principal preocupação é exercitar seu próprio Ki, que pode ser entendido como um direcionamento mental da sua energia física, sem tensão muscular. Durante uma aula, os “aikidocas” exercitam sua auto-percepção treinando técnicas de imobilizações corporais e técnicas com espadas, bastões e facas de madeira. Além disso, ainda fazem exercícios de respiração consciente, de relaxamento e de concentração. A sensei Mônica ainda comenta: "A saúde mental envolve nossas emoções e como lidamos com elas. Podemos não ter controle sobre as coisas que acontecem, mas podemos aprender a controlar como queremos agir frente a certas situações."
Uma ideia muito destacada nesta arte marcial é a importância de viver em equilíbrio e balancear corpo, mente e alma. Afinal, segundo a professora, muitas pessoas possuem um foco muito grande na questão externa e estética, mas esquecem do sentido de trabalhar a saúde "da cabeça", o bem estar da mente e a profundidade da alma como unidade. Malhar e fazer exercício físico são essenciais para a saúde do corpo, mas isso não garante uma boa saúde se não olharmos o todo (alimentação, treino consciente, além de atrelar tudo isso à mente).
Nosso corpo pode ser chamado de nosso templo, pois é ele que recebe toda a carga energética trocada com o mundo, que sente todos os resultados das nossas atitudes e emoções. Somos almas que habitam corpos e possuímos uma mente extremamente poderosa. Por isso, devemos aprender a usar bem todos os nossos poderes e o nosso templo
Mônica Infante, sensei
Quem pensa que as artes marciais não são para todas as idades, se enganou. Com 76 anos, Dolores Haschich é uma das alunas mais dedicadas da sensei Mônica, pratica o Aikidô desde os 60 e já garantiu sua faixa preta. Dolores disse que se apaixonou logo na primeira aula que assistiu, pois sentiu que era uma oportunidade de renovar seu preparo físico e sua energia corporal. Segundo ela, seu cotidiano melhorou imensamente desde que conheceu o Aikidô: “Aprimorou muito meu foco nas coisas, melhorou minha percepção, minha acuidade, a precisão, a economia de força nos afazeres diários. Embora pequena e delicada, eu sou muito forte. E para isso, não é preciso necessariamente força física”. Dolores ainda disse que pretende continuar frequentando o “Dojô amado” por muitos anos, pois quando está lá se esquece de sua idade e se sente realizada por ter aprendido, de fato, a usar seu corpo.
Além de Dolores, outra aluna faixa-preta do Centro Ki-Aikidô é a artista plástica Laura Miranda, de 58 anos, que conheceu o Aikidô durante uma viagem ao Japão e logo quis iniciar a prática. Segundo ela, alguns dos motivos de ter se encantado por essa arte marcial foi o fato de ser uma arte que “explora muito uma harmonia e beleza do movimento corporal, uma relação de precisão entre mente e corpo, e uma relação com o outro”. Laura ainda afirmou que, além de melhorar sua saúde, disposição e vitalidade, a melhor consequência do aikidô em sua vida foi a melhoria da sua parte intelectual e cognitiva, por ser uma arte que atua tanto na mente quanto no corpo.
Laura Miranda e Dolores Haschich praticando técnicas do Ki aikidô, sendo instruídas pela sensei Mônica
Durante a reportagem, a jovem Beatriz de Haro, uma aluna que começou a praticar o aikidô aos 9 anos de idade, fez uma pausa na prática e retornou ao dojô no início dessa semana. Hoje, com 21 anos, ela explica porque nunca teve interesse em fazer musculação, por exemplo, que é o que está tão “em alta” nos dias atuais, principalmente em meio a sua faixa etária. Segundo ela, nas academias de musculação o foco é a imagem, o fitness, e fazer automaticamente inúmeras repetições de exercícios, não havendo, assim, a construção de uma saúde mental.
Para muitos, o aikidô e as artes marciais no geral são sinônimos de luta e defesa pessoal. No entanto, a sensei Mônica Infante fez questão de frisar o contrário. “As pessoas vêm buscar como uma defesa pessoal, mas ao longo do nosso trabalho elas percebem que não precisam se defender de nada, pois você não irá atacar nada. O objetivo não é vencer o oponente, mas sim unificar mente e corpo por meio do estudo de que 'a mente move o corpo', o princípio do Ki. Não é necessária violência nem agressividade.” Segundo Mônica, durante as aulas são ensinadas imobilizações, usadas apenas no intuito de parar um movimento de uma pessoa, não sendo então classificada como um ataque contra outro ataque. A sensei ainda afirma que o objetivo principal do Ki aikidô é encontrar a paz mental e exercitar a vitalidade, ou seja, como é possível ter potência e força de vida no dia a dia.















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