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Funk Ostentação: estilo e objetivo de vida

  • 13 de nov. de 2017
  • 5 min de leitura

“Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci. E poder me orgulhar, e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. Esse é o refrão de um dos funks mais famosos de todos os tempos, o Rap da Felicidade, lançado pelos MCs (Mestres de Cerimônia) Cidinho e Doca, em 1994. Criado na década de 1980 com o objetivo principal de denunciar a realidade das favelas brasileiras e de conscientizar a sociedade sobre o difícil dia a dia dos moradores dos morros, o Funk Carioca contava com letras sinceras e sofridas. Todos os MCs eram moradores de comunidades, que se orgulhavam de sua origem e não sentiam vergonha de serem chamados de “pobres”, como afirma a música citada acima. Com o passar do tempo, o Funk carioca foi se dividindo em vários subgêneros, como o Funk Melody, o Funk Proibidão e o estilo abordado nesta reportagem: o chamado Funk Ostentação.

Com o advento da indústria de bens de consumo e, consequentemente, de uma sociedade que busca em objetos materiais satisfação plena e sucesso pessoal, nasce, timidamente em 2008, na metrópole do consumo – a cidade de São Paulo – a primeira vertente do Funk criada fora do Rio de Janeiro. “Imagina nós de Megane, ou de 1.100. Invadindo os bailes, não vai ter pra ninguém. Nosso bonde assim que vai, é Euro, Dólar e nota de 100.” Esse refrão marcava, em 2011, a explosão nacional de uma nova vertente do funk, ou, mais ainda, de um estilo de vida que encontrava na ostentação um objetivo para existir. As músicas do gênero tocam em todas as festas universitárias, os videoclipes bombam por toda a internet e as letras estão na ponta da língua e na cabeça de milhares de brasileiros.

Comparando o Funk Carioca, descrito no início do texto, com o Funk Ostentação, é possível perceber que ambos caminham em direções contrárias e parecem nem mesmo ter pontos em comum. Esse último gênero foge totalmente à ideologia inicial do Funk e foi criado justamente como uma alternativa à lírica abordada pelo ritmo carioca, que se embasou essencialmente em conteúdos relacionados com a comunidade e com uma vida dura. Enquanto a denúncia em forma de letra, escrita em 1994, diz: “minha cara autoridade, eu já não sei o que fazer, com tanta violência eu sinto medo de viver. Pois moro na favela e sou muito desrespeitado, a tristeza e alegria aqui caminham lado a lado”, no Funk Ostentação, são geradas letras mais “agressivas”, como “você vale o que tem, o que vale pra mim é as nota de cem”. Por que, então, esse ritmo vem tirando o lugar do funk clássico e conquistando tanto espaço na sociedade brasileira atual?C

https://www.youtube.com/watch?v=f3aHwn85mh0

Os assuntos preferidos dos Mcs do Funk Ostentação: carros chiques e joias caras.

Enumeremos dois fatores que contribuíram significativamente para que isso ocorresse. Em primeiro lugar, a esperança gerada pelo cenário descrito nas músicas. Se antes os MC’s estavam imersos em um cenário humilde e sofrido, hoje, suas realidades se aproximam bastante do que cantam. Nos clipes são apresentados meninos iguais à maioria dos jovens que os assistem, que vêm dos mesmos bairros, vilas e favelas, mas, que mesmo assim, conseguiram ostentar carros de luxo, bebidas caras, mulheres bonitas e roupas de grife. O quão positivo é para a autoestima de um menino ver seus iguais fazendo sucesso e ocupando espaços não subalternos, sendo olhados com respeito e não com desprezo ou repulsa?

MC Guimê, o cantor de maior sucesso e o mais característico do Funk Ostentação, já foi vendedor de uma quitanda, trabalhou como carregador de flores nas madrugadas, como limpador de carros em um lava-rápido e até vendendo bananas. Hoje, faz shows em casas noturnas onde os ingressos chegam a custar mais de R$ 300, usa cordões de ouro avaliados em R$ 30 mil e mora numa mansão que lhe custou R$ 2 milhões, na região de Alphaville, endereço dos endinheirados da cidade de São Paulo. Ora, se ele e tantos outros conseguiram, qualquer um poderia, certo?

No último sucesso de MC Guimê, lançado em junho desde ano, ele canta: "Hoje tá fácil, tá tudo mais prático, de conversível, banco de couro no plástico, as notas no elástico. Aí fica lindo, né? Mudei de cargo, de funcionário, me tornei empresário. Salário mínimo ficou pra trás, hoje eu que pago o salário." Confira abaixo o videoclipe da música "No Auge", que apresenta diversas das características ressaltadas por outros "Mcs Ostentação".

Outra questão que justifica o sucesso do gênero no país é o fato da busca por auto-afirmação frente à sociedade ser algo presente no cotidiano de qualquer pessoa, principalmente entre os jovens. Afinal, eles ainda estão formando seu caráter e definindo seus conceitos acerca do que é ter sucesso na vida e do que é ser bem-sucedido em relação ao mundo. A ideologia divulgada por meio das músicas prega justamente que por meio dos bens materiais, do dinheiro e da fama é possível chegar a esse patamar, simplesmente, pelo “ato de ostentar”. Consequentemente, aos olhos destes jovens, e de muitos adultos que também sofrem influência da cultura do consumo, a ostentação acabou se convertendo em objetivo de vida.

MC Léo da Baixada é um dos nomes de mais sucesso do movimento. Seu maior hit é "Ostentação fora do normal".

MC Menor, que também faz parte do gênero, afirmou em entrevista: “Nasci na comunidade e sei que lá ninguém mais quer cantar pobreza e miséria". Com isso, deixou claro que as raízes do funk, que faziam desses dois fatores temas indispensáveis nas letras da época, já foram extintas, e que o funkeiro atual procura ao máximo renegar e fugir de suas origens, tanto musicais, quanto sociais, de toda forma possível. Por isso, em grande parte de suas músicas, esses MCs chegam até mesmo a contar sobre cenários maravilhosos e surreais, como se estivessem imersos neles, sendo que, na verdade, jamais vivenciaram nada daquilo. O MC conhecido como Dimenor DR já afirmou em entrevista que não tem carro, moto, nem apartamento próprio, mas que está juntando “um dinheirinho”. Apesar disso, sua letra mais conhecida afirma: “Apê na praia, mansão no sitio. No exterior tá tudo comprado. Se tu ficou alucinado, vai cair pra trás quando eu falar dos carros: BMW, Audi e Lamborghini […]”. Irônico, não?

O estilo adotado pelos rappers americanos da atualidade se assemelha muito ao Funk Ostentação.

Segundo a psicanalista Sofia Fernandes, uma consequência das letras do gênero, que tratam aqueles que não fazem parte do universo da ostentação como inferiores, é o fato de destacar e marcar ainda mais a desigualdade social tão acentuada no nosso país. "Afinal, como se manifesta a decepção gerada nos seguidores dessa vertente, que vivenciam uma realidade social diferente da que cantam e dançam? Claramente, dentre os desdobramentos do Funk Ostentação na sociedade atual, o mais certeiro, relevante e, ao mesmo tempo, preocupante é o aumento da violência urbana".

A psicanalista comenta que isso ocorre uma vez que esse gênero causa em boa parte das pessoas frustração, muitas vezes acompanhada de um sentimento vingativo em relação à ”alta” sociedade - por seus integrantes possuírem tudo o que estes "frustrados" não têm. Ao mesmo tempo, existe também um sentimento de necessidade de pertencimento à essa alta sociedade. Sofia ressalta: "Resultado disso: enquanto alguns fazem montes de dinheiro por meio desse “produto”, o Funk Ostentação, outros buscam se igualar à esses primeiros. Alguns, trabalhando honestamente, outros, por meio das mais diversas formas de crime. Os que restam, assistem à depredação contínua dos valores pessoais que realmente importam e do caráter humano… E tentam resistir à pressão social de se adequar a essa".


 
 
 

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