A polêmica do árbitro de vídeo no futebol
- 6 de nov. de 2017
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Um tema que divide opiniões no cenário futebolístico

Futebol e tecnologia sempre andaram juntos. Modernamente, os avanços tecnológicos permitem maior detalhamento nas imagens durante as transmissões e podem contribuir para o espetáculo, já que esse esporte mexe com a cabeça do brasileiro. Entretanto, o uso do árbitro de vídeo, conhecido também como VAR (Video Assistant Referee), em inglês, tem causado muita polêmica no mundo da bola.
O uso do árbitro de vídeo foi utilizado pela primeira vez no Mundial Interclubes de 2016. No Brasil, durante o primeiro jogo da final do Campeonato Pernambucano, entre Sport e Salgueiro, sendo definitivo para o placar final. No último lance da partida, houve dúvidas a respeito de um pênalti contra o Sport, e o juiz precisou do auxílio da tecnologia para confirmar a marcação.
VAR no futebol brasileiro
No jogo inicial da final do Campeonato Pernambucano, o árbitro de vídeo foi usado pela primeira vez. Graças a uma parceria firmada entre a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Federação Pernambucana de Futebol (FPF). O árbitro de vídeo só deve ser utilizado em lances capitais do jogo, como se houve ou não o pênalti, expulsões diretas de forma indevida e se foi ou não gol.
E, já em sua primeira utilização, no jogo entre Sport de Recife e Salgueiro, o árbitro José Woshington da Silva marcou um pênalti a favor do Salgueiro aos 48 minutos do segundo tempo, e, depois de seis minutos, o pênalti foi confirmado. Com essa decisão, o Salgueiro chegou ao empate.
Como está a utilização do árbitro de vídeo pelo mundo?
O campeonato alemão (Bundesliga) foi a primeira liga a desenvolver os mecanismos necessários para a implementação do árbitro de vídeo, com a criação de uma central específica para arbitragem de vídeo, que monitora todas as partidas. Além disso, os campeonatos italiano (Série A) e português (Primeira Liga) também têm adotado o VAR (Video Assistant Referee) nas partidas de suas primeiras divisões.
Além do árbitro de vídeo, há outros avanços tecnológicos que podem ser usados nos jogos, como o uso de ponto eletrônico e o chip na bola. No entanto, a utilização destes recursos ainda causa discussão. A Fifa (Federação Internacional de Futebol Associação), porém, já autorizou a Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) a utilizar o auxílio do árbitro de vídeo, e isso passou a ocorrer durante a semifinal da Copa Bridgestone Libertadores da América.
O que é o árbitro de vídeo?
O árbitro assistente de vídeo é válido para situações polêmicas em que o juiz acaba tendo dúvidas sobre um lance em específico e com isso as câmeras entram em ação. Os usos mais frequentes dessa tecnologia são em lances de impedimento, pênaltis, ver se foi ou não gol e corrigir erros de aplicação de cartão amarelo ou vermelho. Entretanto, nos lances considerados interpretativos fica a critério do árbitro solicitar ou não esta ajuda.
Assim que o juiz solicita o auxílio eletrônico, o árbitro de vídeo assiste o replay da jogada e passa a informação para o juiz principal, que tem a decisão final sobre o assunto. As imagens podem ser geradas em uma central ou mesmo pela emissora de TV que é detentora dos direitos de transmissão do campeonato.
A FIFA (Federação Internacional de Futebol Associação) criou um infográfico que explica como vai funcionar o árbitro de vídeo e quais as suas possibilidades de uso.

(Infográfico desenvolvido pela Fifa, retirado do site da CBF )
Posição da Federação Mineira de Futebol (FMF)
O presidente da Comissão de Arbitragem da Federação Mineira de Futebol (FMF), Giuliano Bozzano, afirmou que a decisão é positiva e vem para ajudar os árbitros: “Fico bastante feliz, porque acho que os árbitros estão perto do limite humano. O trabalho dos árbitros é monitorado por diversas câmeras nos jogos e, por isso, se a tecnologia não for usada, vai dificultar ainda mais o trabalho dos juízes.”
Para o consultor de arbitragem e ex-árbitro Adilson Mattos, a tecnologia vem para melhorar o futebol, já que além de servir de ajuda para os juízes, diminui as chances de prejudicar alguma equipe ou resultado final da partida. "Tudo que puder ser feito para não prejudicar o espetáculo deve ser feito, sempre priorizando a isenção do juiz, que está ali para garantir o bom andamento das partidas."
Mas nem todos concordam com a utilização desta tecnologia no futebol. É o caso do árbitro da Liga de Futebol de Juiz de Fora (LFJF), Marcelo Enes, que reconhece os avanços da tecnologia, mas pondera o seu uso: “Tem sido muito importante, principalmente para nós árbitros. Mas acho que o lado negativo é que tira a emoção do futebol pelas jogadas polêmicas que sempre existiram e fazem o esporte ser tão apaixonante.”
O que pensam os jogadores sobre o árbitro de vídeo
Conhecido em Juiz de Fora por ser ídolo de Tupi e Tupynambás, e com passagens por grandes clubes brasileiros, como o Fluminense, o atacante Ademilson Correa se mostrou a favor do uso da tecnologia no futebol e, mais especificamente, do árbitro de vídeo, desde que não atrapalhe o bom andamento do jogo.
“Acho válido, pois pode ajudar muito a diminuir erros da arbitragem, desde que não fique com o jogo muito tempo parado. Mas, fora isso, só tem a acrescentar, porque é duro você trabalhar o ano todo para às vezes um erro humano eliminar a sua equipe e destruir o planejamento de toda temporada”, destacou Ademilson.
Já para o volante, ex-Fluminense e Tupi, que agora atua pelo FC Lahti, da Finlândia, Wallace Bonilha, o árbitro de vídeo é muito positivo. Porém, o volante destaca que ele poderia ir mais longe, e ter a possibilidade de avisar o juiz em lances como agressões, que no calor do jogo podem acabar passando desapercebidas.
“O árbitro de vídeo pra mim deveria funcionar como um fiscal, além dos juízes, pois tem uma visão de fora da situação”
Wallace Bonilha, volante do FC Lahti.
Com a palavra: os torcedores
O jornalista esportivo, Bruno Kaehler, usou o exemplo de outros esportes para justificar a tecnologia no futebol: “Eu sou a favor e, para justificar, vou usar o exemplo de outros esportes: como o tênis, em que os dois jogadores têm direito ao pedido de desafio, e o vôlei, aonde isso também tem acontecido, mas com os técnicos responsáveis pelo pedido.”
Entre os torcedores, a discussão divide opiniões. Cláudia Oliveira é torcedora do Vasco e a favor da tecnologia no futebol: “Eu acho, sim, que futebol é emoção, é sentimento, mas pra mim também é verdade. Eu, como torcedora do Vasco, já sofri muito com erros de arbitragem que determinaram até mesmo títulos contra o meu time.”
Já Tárik Belline, torcedor do Flamengo, defende a emoção da partida acima de tudo: “O futebol é bom porque ainda não tem interferência da tecnologia, o que torna o esporte natural, porque o árbitro vai errar e acertar, porque ele é humano, e isso faz o futebol ser tão apaixonante."
Implantação do árbitro de vídeo no Brasil
Após alguns lances bizarros no Brasileirão 2017, em que os árbitros deixaram passar lances como impedimentos de mais de 2 metros, bola que entrou toda no gol e ainda assim o tento não foi validado e mão na bola dentro da área, cogitou-se a inserção do árbitro de vídeo ainda nesta edição do campeonato brasileiro. O auge para esses pedidos se deu no gol de mão marcado por Jô, no clássico entre Corinthians e São Paulo, que tirou pontos do tricolor paulista, clube que brigava contra rebaixamento, e de quebra resultou em ganho de pontos para os alvinegros, que ostentam uma considerável vantagem na liderança do campeonato.
Entretanto, a instalação do árbitro de vídeo foi descartada para 2017 devido à sua complexidade e seus custos. Além de ser caro manter a utilização do assistente de vídeo, é preciso que os próprios juízes e também os árbitros de vídeo passem por uma especialização e tenham total conhecimento dos usos dessa tecnologia, já que o pedido do auxílio do vídeo deve sempre ser feito por meio do juiz principal do jogo, que tem na decisão proveniente da tecnologia apenas uma ajuda, podendo acatar ou não a o resultado da consulta.
A previsão é de que o árbitro de vídeo passe a ser utilizado no Brasileirão 2018 ou 2019, mas apenas para a Série A, devido aos custos. Mas isso ainda depende de um planejamento que precisa partir da CBF e da relação custo-benefício da tecnologia.















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