Entre o sonho e a realidade
- 21 de nov. de 2017
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Conheça as histórias de Wagner e Felipe, dois atletas da Zona da Mata mineira que chegaram ao vôlei profissional

Vencer por meio do esporte é o sonho de muitos jovens, mas poucos sabem as dificuldades e barreiras enfrentadas para conquistar espaço em grandes equipes esportivas, seja no país ou no exterior. Em Juiz de Fora, há atletas que, depois de um longo período de luta, têm conseguido se destacar.
Este é o caso de Wagner Pereira da Silva, 24 anos. Natural de Mar de Espanha, o jovem mudou-se para Juiz de Fora e conseguiu espaço e apoio na equipe de voleibol do Granbery. Hoje, seis anos depois, o atleta comemora a sua primeira temporada na Itália, renovando seu contrato no Santa Croce, equipe da primeira divisão italiana. Ele coleciona ainda passagens pelas seleções brasileiras de base do vôlei.
Exemplos de superação e volta por cima não faltam. Notórios atletas, como Cafu, capitão do pentacampeonato da Copa do Mundo pelo Brasil, em 2002, que foi rejeitado em nove testes até ser aprovado nas categorias de base do São Paulo, ou de Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho, que saíram ainda jovens de favelas para desfilarem seus talentos nos principais gramados do mundo.
Realidade do vôlei
Um exemplo atual de alguém que conseguiu conquistar seu espaço no voleibol é o de Wagner Pereira da Silva. Nascido em Mar de Espanha, Wagner está agora com 23 anos de idade. No entanto, ele contou que foi muito difícil se tornar profissional. “Eu venho de uma cidade pequena, de uma realidade onde tive muita dificuldade para treinar, pois precisava trabalhar e ajudar em casa. Só que, graças a Deus e à minha mãe, pude vir para Juiz de Fora, e aqui comecei a minha carreira ainda como atleta amador, mas o Didi, meu treinador, sempre me disse que eu iria vingar.”
Em Juiz de Fora, Wagner iniciou sua carreira na equipe do Granbery. Treinado por Marcus Vinícius, o Didi, conquistou vários títulos, tanto em âmbito regional, como também mineiro. Além disso, foi em Juiz de Fora que Wagner teve sua primeira sua primeira convocação para a seleção mineira e brasileira de base.
O jogador soma passagens por Sesi-SP, Santo André, Montes Claros e Bento Vôlei, equipe pela qual disputou a última temporada da Superliga e foi o maior pontuador do time na competição. O atleta contou um pouco do que o motivou a continuar batalhando: “Objetivo e força de vontade. Sempre corri atrás do que eu queria. Sempre assistia à final da Superliga, daí fui me dedicando para chegar aonde cheguei.”
O agora jogador europeu, ressaltou: “Me lembro de ter jogado com muita gente, muitos atletas com potencial, mas que ficaram pelo caminho, seja porque precisaram começar a se sustentar e o dinheiro que recebiam no clube não era suficiente, ou porque foram dispensados de suas equipes e, devido a não terem outras propostas, foram obrigados a parar.”

Mesmo após ter se tornado atleta profissional, Wagner relembra que as dificuldades não acabaram: “Eu estava vindo de um momento muito bom, tinha voltado da seleção sub-23 muito confiante no meu trabalho, tanto que viajei com a seleção pro mundial e fui campeão da Copa Pan nos EUA. Quando voltei ao Montes Claros, não estava conseguindo exercer o mesmo voleibol, era cobrado constantemente, tentei seguir uma linha de raciocínio que não era a minha, tentei ser um jogador que eu não sou, comecei a jogar sem meu sorriso no rosto sem poder de certa forma me divertir dentro da quadra. No meio disso tudo, tive que fazer uma cirurgia inesperada na bexiga que me fez sair do vôlei, e isso me fez perder tudo, tudo o que você pode imaginar. O brilho nos meus olhos foi embora, minha vida profissional não era mais a mesma, nem a pessoal. Quando saí de lá, senti um peso saindo das costas”
Questionado sobre seu ídolo e uma frase marcante em sua vida, Wagner não titubeou: “Sempre fui fã do André Nascimento (cuja família reside em Juiz de Fora) pelo vôlei que ele jogava e por ser canhoto, tive a oportunidade de conhecê-lo ele e de trabalhar ao lado dele no Montes Claros, fiquei mais fã ainda. Uma frase que sempre vai me marcar, porque eu ouvia muito isso dos meus técnicos é: Você tem que matar um leão por dia, infelizmente o esporte é assim.”
Após passagem de sucesso pelo Bento Vôlei, Wagner foi contratado pelo time italiano, e, apesar de já ter viajado para o exterior para defender a seleção brasileira de base, confessou que ficou ansioso por sua primeira temporada fora do Brasil: “Essa temporada foi muito importante para mim, consolidou ainda mais tudo o que eu venho fazendo. Sei que não vai ser nada fácil, mas estou determinado. Tenho meus objetivos pessoais e ainda sonho em ir para a seleção principal.”
Felipe Roque representa esperança para o futuro do Brasil no vôlei

Outro que vem conseguindo se manter no mercado do vôlei é o oposto Felipe Moreira Roque, de apenas 20 anos, que disputou sua última temporada pelo Minas Tênis Clube. O juiz-forano contou que, até os 16 anos, jogava vôlei apenas como lazer, mas que seu crescimento inesperado, alcançando 2,06 metros de altura, fez seu treinador ver nele um potencial atleta profissional.
“Em meu primeiro campeonato mineiro, percebi que todos me olhavam diferente, e que minha altura me proporcionou coisas boas, já que, após a competição, eu fui chamado para jogar pelo Minas Tênis Clube, um dos mais tradicionais clubes do Brasil.”
Na temporada 2016/2017, o Minas passou por dificuldades financeiras, e, com isso, resolveu apostar em atletas mais jovens e que recebem menos do que medalhões. Devido a isso, o jovem Felipe foi promovido a segundo oposto da equipe. Entretanto, com lesões no plantel, recebeu a chance de ser titular logo em sua primeira Superliga, e, desde então, firmou-se na equipe principal e agora chega com muita moral para a temporada 2017/2018.

“A temporada 2016/2017 foi minha primeira Superliga, por isso foi uma experiência completamente nova, pois nunca tinha jogado um campeonato desse nível. Ainda tenho que melhorar em muitos aspectos, eu penso em evoluir a cada dia para ser um jogador completo, para assim poder me estabilizar no mercado do vôlei. Espero que agora seja tudo ainda melhor”.
Felipe Roque, oposto Minas Tênis Clube
Entretanto, Felipe ressaltou: “Nós precisamos abdicar de muitas coisas, como por exemplo de sair com os amigos, ter uma rotina certa, ficar com a família. O jogador vive viajando, e, quando não faz isso, está treinando”.
Passo a Passo para se tornar um atleta
Ex-treinador tanto de Wagner Silva, como também de Felipe Roque, Marcus Vinícius, mais conhecido como Didi, que hoje é treinador do Mogi das Cruzes, contou um pouco mais sobre as possibilidades de um jovem atleta chegar a se profissionalizar no vôlei

Opinião do especialista
A psicopedagoga Larissa Resende ressaltou a importância de o jovem ter em mente que esporte e estudos devem andar juntos, principalmente, para não ocorrer uma frustração tão grande caso o adolescente não consiga se profissionalizar: “Tanto na escola como no esporte, o que vai sustentar de forma positiva será a auto-organização, planejamento e execução. Sem eles, fica insustentável obter resultados positivos. Ambos geram conhecimento, disciplina, sociabilidade, relação intrapessoal e interpessoal, resiliência, dentre inúmeros processos que o inserem e corroboram com seu desenvolvimento pleno nos dois ciclos.”
Larissa ainda enfatizou: “Reforço a tese que tudo pode tomar um caminho diferente, a partir do discurso que é adotado dentro do seio familiar, no momento em que os pais demonstram que estão juntos para apoiá-los em seus sonhos, mas, que, para a realização deste sonho, há um grande caminho a ser traçado e percorrido.”
Para a psicopedagoga, o esporte não pode ser o único foco do jovem: “Caso se tornar profissional seja a única meta do adolescente, existe uma grande chance de ele se frustrar, já que muitos acreditam que se dedicando unicamente ao esporte podem alçar um lugar de destaque ou que estariam com seus futuros garantidos para o resto de suas vidas, e, quando a realidade não mostra isso, fica complicado reciclar esse sonho.”
“Faz-se necessário planejar com eficácia em prol de um grande objetivo de vida, seja ele de que âmbito for, mas, como tudo em nossas vidas, precisamos ser cautelosos em não alimentar e cativar esses sonhos, porque hoje estamos limitados pelo modismo exacerbado de um “auto veículo” condutor, perturbador e regulador que é a mídia, que cria em muitos jovens um sentimento de que o esporte pode torná-los famosos e ricos.”















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