Grafite como forma de arte e a invasão das cores
- 19 de out. de 2017
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Como o “boom” do grafite vem trazendo vida a muros sem cor e a locais abandonados, e como a pichação ainda se mantém meio a tantas críticas e reclamações da população

Na Avenida Brasil metade do muro é tela para o grafite e na outra metade para as pichações (Fonte: http://curtaa.wordpress.com)
Assim que assumiu a Prefeitura de São Paulo, João Dória (PSDB) causou um grande rebuliço com diversas medidas em relação às características visuais da capital paulista, e uma das mais polêmicas foi pintar de cinza paredes e muros que eram grafitados, principalmente porque muitas dessas obras foram financiadas pela antiga gestão. O tema nos faz refletir sobre uma questão muito pertinente para um momento de total intolerância em que vivemos. Grafite é arte?
Nos dias de hoje é possível imaginar um padre com uma lata de spray na mão fazendo uma pichação em um prédio? E um antigo guerreiro romano, a caráter, grafitando desenhos em uma parede? Pois é, com certeza essas imagens não vêm com facilidade à cabeça, mas, na Antiguidade, eram práticas bastante comuns.
Na Idade Média, com o intuito de expor sua ideologia, criticar doutrinas contrárias às suas ou mesmo difamar governantes, muitos padres pichavam os muros de conventos rivais. E durante o Império Romano os grafites eram base para a comunicação, pois os desenhos nos muros eram utilizados como um dos suportes de diálogo com a esfera pública.
Atualmente, séculos depois, ambas as práticas continuam extremamente populares e, inclusive, nunca repercutiram tanto. O grafite chegou ao Brasil na década de 1970 e desde então foi rapidamente ganhando espaço em diversas cidades do país. Hoje em dia ficou difícil encontrar um muro, parede ou locação abandonada que não estejam cobertos de desenhos psicodélicos, caricaturas, siglas, frases de reflexão ou mesmo palavras soltas feitas pelas mãos de grafiteiros e até mesmo de pichadores.
Os artistas por trás das latas de spray

Grafites dão vida a um muro na Avenida Sete (Fonte: http://intervencoesurbanasjf.blogspot.com.br)
No Brasil, o grafite foi visto por muito tempo como contravenção, no entanto, hoje em dia ganhou espaço como manifestação artística e forma de valorização de um patrimônio, sendo permitido por lei, desde que com o consentimento prévio do dono do espaço a ser utilizado como “tela”. Elogiados por muitos cidadãos por embelezarem e darem destaque a muitos ambientes destruídos, esquecidos e mal cuidados, hoje os grafiteiros passaram a ser considerados verdadeiros artistas.
Primordialmente o grafite foi criado a partir de uma evolução das pichações, inclusive, a palavra deriva do italiano “grafito”, que significa “escrita”, que nada mais é do que a pichação em sua base. Da mesma forma, a grande maioria dos grafiteiros iniciou seu envolvimento com tal arte por meio de pichações nas ruas da cidade.
O início de uma grafiteira
Foi o caso de Fernanda Toledo, grafiteira da cidade de Juiz de Fora há quase 10 anos, que sempre gostou de desenhar e viu nos “pichos” e, posteriormente, nos grafites, uma válvula de escape da realidade. “O grafite entrou na minha vida num momento em que eu era adolescente, estava revoltada com a vida, meu pai havia acabado de falecer e sentia a necessidade de me jogar em aventuras.”
“Comecei a fazer pichações pela adrenalina que aquilo me provocava, mas sempre sabendo da ligação que tinha com o grafite. Aos poucos, fui vendo vídeos da arte, conhecendo pessoas e aprendendo na rua, porque o grafite não tem curso, não tem aula, você tem que captar a essência”
Fernanda Toledo, grafiteira
Pichação x grafite
Hoje, quase uma década após seu passado de pichadora, Fernanda diferencia as duas formas de expressão. “Não acho que a pichação deva ser considerada como arte, uma vez que a função dela não é ser inserida como decoração em um local nem pintar painéis em uma parede sem graça, mas, sim, acho que ela tem um papel de incomodar, de mostrar para a sociedade que ainda é possível se rebelar rabiscando patrimônios, por exemplo; e isso não é artístico.”
Hoje em dia

Um dos grafites de Fernanda Toledo, assinado com seu apelido “pequena” (PKN)
Fernanda Toledo, que nos tempos de pichadora utilizava o apelido “Pequena”, acabou ficando assim conhecida nas ruas de Juiz de Fora e hoje tem muito respeito na área, pois além de ser formada em design gráfico, a grafiteira dá aulas de grafite para crianças.
Ela garante que ainda hoje o que motiva suas pinturas é a necessidade de compartilhar seus sentimentos e concepções, principalmente em momentos em que está “à flor da pele”. “Tem momentos em que eu estou mais emotiva, então coloco num grafite um coração humano; em outros, frases que rondaram minha cabeça por vários dias e estavam presas comigo. Também exploro bastante rostos femininos e mulheres encapuzadas, para simbolizar a resistência ao patriarcado; uma resistência de mulheres guerrilheiras. Sempre tive esse lado feminista.”
Por acabar passando em frente a várias de suas obras diariamente, ela diz que uma das motivações na hora de fazer um novo grafite é a autocrítica, pois, ao vê-las, ela entra numa constante busca pela melhora de seu trabalho e sua técnica; “coisa de artista”, segundo Fernanda.
Além dela, inúmeros pedestres também reparam as pinturas tanto nos muros da cidade quanto em clipes musicais, novelas e reality shows, fato o qual ela julga responsável pelo preconceito contra os grafiteiros vir se tornando cada vez mais raro. “Hoje em dia as pessoas até agradecem quando me veem fazendo algo; falam que está ficando muito lindo, que estou enfeitando a cidade e que estão gratas pela beleza que eu levei àquele lugar.” Porém a jovem garante que já passou “perrengues” e acabou algumas vezes na delegacia, por ter grafitado sem autorização prévia.
“A minha vida que estava toda apagada foi aos poucos ganhando várias cores novas, e o processo continua a cada dia”
Fernanda Toledo, grafiteira
Os rebeldes fora-da-lei

A quadra da Praça de São Mateus foi inteiramente pichada (Foto por: Bárbara Schmidt)
Entretanto, como em tudo, existe o lado B, e com isso, nem sempre o objetivo de se pintar muros e paredes é embelezar. As pichações têm como objetivo delimitar a área de influência de um certo grupo de pichadores, os chamados “crews”. Numa constante busca por espaços em branco prontos para serem rabiscados e marcados com letras decifráveis apenas por eles mesmos, os pichadores acabam depredando estabelecimentos, patrimônios, residências e até placas de trânsito.
Pichação x grafite
A grande diferença do grafite para a pichação está nos lugares, já que, para os pichadores, a preferência é por lugares que não estejam abandonados nem esquecidos, uma vez que o “picho” em um local com grande visibilidade é o principal objetivo. Outra busca é por lugares altos e de difícil acesso, pois além de significar que você está no topo da hierarquia dos grupos, também demonstra que não foi apenas um rabisco, mas, sim, que existiu toda uma técnica e planejamento para se chegar àquele resultado final.
A pichação também se diferencia do grafite uma vez que impulsiona constantemente atritos e disputas entre os grupos em vez de pregar a harmonia entre os participantes do movimento. As brigas por território são constantes na pichação e essa é uma prática comum, com um pichador deixando sua marca em cima de uma marca alheia, o que gera ainda mais conflitos entre pichadores e acabam prejudicando os locais que sofrem com tais “pichos” e não têm nenhuma relação com a disputa por espaço dos grupos de pichação.
Vandalismo?
Hoje em dia é fácil observar que diversos estabelecimentos, casas e edifícios acabam deteriorados e sujos por pichações e, justamente por isso, o movimento do grafite ainda não é definido como uma forma de arte pela sociedade em geral, muito devido à confusão feita por muitas pessoas entre grafite e pichação.
Os pichadores são constantemente chamados pelos cidadãos de “vândalos”, “delinquentes” e até mesmo de “criminosos”, mas o preconceito não se deu à toa, já que sem qualquer autorização e indo contra o Código Civil de legislação do país, os pichadores deixam suas marcas onde bem entendem sem se preocupar com consequências futuras. E tais atos acabam prejudicando também os grafiteiros, que acabam sendo colocados em um lugar comum, juntamente com os pichadores.

Nestes muros na Avenida Itamar Franco, o grafite e a pichação dividem o espaço (Foto por: Bárbara Schmidt)
Preparamos um quiz sobre grafite com algumas informações bem bacanas sobre o assunto:















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